E chegou o dia em que o véu entre os mundos fica mais fino e os portais se abrem...
Antes de ir para o Samhain tive muita dificuldade de ir. Queria realmente ficar deitado e não estar com outras pessoas. Tomei um banho, fiz uns paranauês e consegui ir, mas assim que cheguei minha vontade inicial era ir embora. Só depois de um tempo consegui realmente estar ali e ficar calma.
Durante o ritual o momento marcante foi o Círculo dos Mortos. Meu corpo tremia inteiro e eu fiquei bem mal. Foi a conta da Senhora da Face Pálida tocar minha testa e tudo isso chegar como aquelas ondas que te arrastam para o fundo da água. Demorei um pouco para conseguir colocar a oferenda no chão. Depois disso eu fechei os olhos e fui parar em um jardim florido e enevoado com muitas pessoas. Aqueles que se aproximaram de mim todos meus amados que partiram. Neste momento eu derramei em lágrimas e comecei a falar de forma maluca e desordenada como se não tivesse tempo pra falar tudo o que precisava e eu chorava e falava, falei da minha dor, da vida, de como eu me sentia sozinha sem ter ninguém pra conversar, de como os amava. Joana sorriu e colocou as mãos sobre meus ombros e disse:
“Minha menina, nada disso importa aqui onde estamos. O que importa é só a história dos atos que fizemos, então nada disso importa. Você sempre foi uma mulher maravilhosa, consciente e correta, mesmo cometendo erros. Mas agora você precisa largar este peso que foi colocado por nós e por outros nos seus ombros, precisa largar este peso do mundo que você carrega nas costas. Isso não é você. Já é hora de não ser mais definido por este peso que tanto te cansa. Essas feridas não te definem, isso não é você.”
Minhas avós então me disseram “Deixe aqui conosco este peso e daqui pra frente pense em você, viva por você, viva sua vida”.
Eles me tocaram nos ombros, me abraçaram e nos despedimos.
E ali no mundo dos mortos eu não queria voltar. Não estava ouvindo mais nada, só sentindo aquele local florido, ensolarado e calmo e eu deitei e não queria voltar. Por um momento eu não senti mais dor, medo, receio da opinião alheia, não senti mais depressão, mágoa, tristeza, nada, apenas paz. E eu não queria voltar, nada mais tinha importância eu só queria ficar ali deitada e dormir naquele local.
Foi então que me veio o rosto da Morgana e eu vi a mão dela, só a mão no meio da nevoa e peguei. Voltei para este mundo e vi que todas as meninas tinham ido para o mundo dos vivos e parte dos meninos. Senti uma dor tão forte, um pesar tão grande, que eu caminhei no automático até a Deusa Donzela (Ishtara) que me disse que seria um ano de sucesso, e depois sentei no sofá.
Morgana viu o quanto eu estava mal e me abraçou e neste momento eu chorei de novo, chorei muito. Eu estava de volta sentindo toda aquela dor novamente.
Isso nunca tinha acontecido. Este pesar por estar vivo, pelo menos não com esta intensidade. Não foi o fato de reencontrar minhas amadas que partiram. Foi sentir a paz do mundo dos mortos e a dor de estar vivo. Eu nunca tinha sentido tão forte vontade de morrer como senti ontem.
Uma pausa de descanso entre tanta coisa turbulenta que se passa dentro de mim, uma pausa de tudo isso que é a vida. E por isso foi tão horrível ser arrancado disso e voltar para a minha “corporeidade” e tudo o que faz parte. Esta experiência me mostrou a complexidade e o tamanho da dor e cansaço acumulado que venho carregando.
Hoje estou me sentindo muito estranha, vazia. Vou apenas deixar fluir isso e depois pensar em tudo.
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