quarta-feira, 26 de junho de 2019

Outro sem data, de um dia nem tão otimista assim. Uma carta para alguém, que virou uma carta pra ninguém (maio 2019)

ontem eu vi relâmpagos 
eles me lembraram de pessoas que iluminam todos os espaços que ocupam
como eu fui um dia

mas hoje me falta tato e me sobra choro
eu queria ter a palavra exata
uma poesia que nos tirasse de todo esse caos
algo que nos lembrasse sobre ter fé
sobre a força ancestral que nos rege 
ou sobre como resistir quando querem
engolir nossa liberdade
eu só consigo pensar nesses dias que atravessam
a gente no meio
parece que quando o amor vai acabando no mundo
vai murchando na gente também
semana passada enfiei na cabeça que eu seria
mais celebrativa
voltei a agradecer o vento na cara
dancei samba sozinha na cozinha de casa
abri meu peito e me dividi
e deixei o sol entrar nas minhas cicatrizes
precisava vê-las melhor
lembrar do que já me derrubou
pra me proteger daqui pra frente
o mundo sempre esteve louco
faltam quinze minutos pro dia virar
e não há o que dizer
agora é hora de abraçar bem demorado
fazer carinho no cabelo
juntar retinas
trocar afetos
dar risada de coisas
triviais
se juntar com quem ainda acredita
que podemos florescer
assim vamos amenizando as pedras
que se instalaram na nossa garganta
e no nosso estômago
amanhã vamos pensar em algumas
estratégias, cê vai ver
desabe primeiro, grite
conte seus medos
tem um rombo no meu peito
mas ainda estou viva
então ainda posso guerrear
você se pergunta com que força
eu imagino que seja com a nossa
a minha e a sua juntas podem acabar 
se tornando algo grande, vê?
quero transformar os espaços em lugares
mais cheios de respirações livres
compreender os términos e os inícios das lutas
minha história será contada por mim
sua história será contada por você
sobreviventes mas não menos potentes

por hoje vem aqui pertinho
quer ver o sol nascer algum dia
dessa semana
quer dormir aqui em casa
ver um filme 
conversar sobre qualquer coisa
dar as mãos
quem sabe aí a gente volte
a ser fogo nesses dias
em que não parecemos ver
nenhuma faísca 
quem sabe
não custa tentar

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