sexta-feira, 31 de maio de 2019

Emptyness

Esvaziada de mim
Perdida num campo estéril e cinza
Sem sentir 
Nem ódio nem amor 
Nem prazer nem dor 
Nem frio nem calor 
Uma casca vazia 
Alma suspensa em um mar
De vazio e de cansaço 

O corpo esgotado 
Da busca de sensações 
Da fagulha a reavivar a chama apagada
Da lâmina afiada ao orgasmo intenso 
Do filme de comédia à carreira de cocaína
Apenas despertares fugazes 
Que partem deixando apenas o nada 




quinta-feira, 30 de maio de 2019

Oração da Noite

é que eu quero estar com você como nunca quis estar com ninguém. 
com medo, sem medo e do jeito que tiver que ser, eu quero ser sua.
vejo a forma como meus olhos te tocam e percebo que te sinto além da pele. 
eu te amo daquela maneira inexplicável. 
meu corpo te deseja, além dos limites.

meu sorriso tem seu nome.
e minha boca não quer desaprender a te dizer o quanto eu quero você.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Súplica

eu quero ser devorada pelo seu olhar da maneira mais safada e perversa possível. 
quero que a falsa ideia de toque seja real enquanto suas mãos exploram cada parte intocável do meu corpo. 
eu peço pelo arrepio que percorre a espinha quando tua língua úmida tocar aquilo de mais gostoso que há em mim. 
me bebe. 
deixe seus dedos brincarem em mim.
me bate.
me chupa.
me morde.
deixe sua marca sobre a minha pele.
sinta o prazer no meu gemido trêmulo e na minha voz abafada.
se aqueça no calor que irá se fazer presente entre as nossas coxas.
dance no meu corpo suado.
exija cada vez mais.
mais devagar.
mais rápido.
te peço para não parar 
e que você não pare.

sinta minha boca quente que te engole enquanto minha língua escorre e chega a lugares inimagináveis.
venha me foder por inteiro.
me sinta.
estou entregue.
e goze.

me parta ao meio, se for preciso.
e se faça.
mas, por favor

faça eu sentir que você me deseja por inteiro.

(Março de 2019)

terça-feira, 14 de maio de 2019

Deixa eu te amar

Uma terapeuta me disse uma vez que é irônico o quanto eu amo as pessoas, e ao mesmo tempo não consigo me amar. 
Ela riu, como se o amor próprio fosse apenas uma piada. 
Eu também ri, mas em casa, chorei. 
Outras pessoas já me disseram que eu não poderia amar ninguém enquanto não aprendesse a me amar. 
Dessa vez, quem riu foi eu. 
A piada era eu. 

Eu lembro de me odiar com sete anos, meus diários lotados até as margens com críticas. Com oito anos, eu já tinha páginas escritas o suficiente para costurar, construir asas pra voar bem perto do sol, até que minhas lágrimas evaporassem e eu sentisse a cera das asas queimando os ombros e esculpindo-se sobre a pele. 

Eu tinha nove anos quando quis morrer pela primeira vez. Vinte quando finalmente achei uma solução: se eu me cortasse o suficiente, talvez a gravidade me deixaria ir. Mas ela não deixou, e eu embolei uma fronha de travesseiro ao redor do meu pescoço, apertando-a como as cordas que eu gostava de pular na minha infância. Eu ouvia meus batimentos cardíacos em meus ouvidos como um tambor, e então tudo desapareceu. Quase me convenci de que tinha conseguido partir. 

Quando comecei a escrever, derramava meu sangue em cada página, para me lembrar de que todas as coisas belas têm uma consequência. Eu esperava que a coagulação parasse, para que eu pudesse ir. 

E eu morri tantas vezes. 

Então quando eu digo pra você que te amar quase me faz pensar que a vida vale a pena, eu não estou brincando. 
Quando te digo que te amar quase faz eu me esquecer do quanto eu me odeio, não é simplesmente poesia. 

Te amar é fazer bom uso de todo o amor que eu esqueci de dar para eu mesma. 

Esse amor me lembra que se alguém consegue gostar de uma coisa morta dessa forma, se alguém consegue me abraçar e agradecer por eu conseguir abraçar de volta, se alguém consegue lidar com minhas pílulas, suportar os dias ruins, então talvez eu possa tentar respirar de novo. 

Porque o amor próprio nem sempre vem em primeiro lugar. Ou em segundo lugar. Ou nunca...

Deixa eu te amar. De longe, em silêncio, em segredo.
Deixa eu te amar. Mesmo que você não saiba, nem corresponda.
Deixa eu te amar. Te imaginar em meus braços e te acariciar sem te tocar.

Deixa seu amor ser meu porto seguro, ser a gaveta que esconde as coisas afiadas de mim, ser o corpo que carrega minha mente em colapso e me deita em uma cama de flores.

Porque talvez, mesmo que eu esteja morrendo, ainda consiga dançar com você. 

O amor não vai me curar, não vai tirar as coisas ruins do meu sangue – eu sempre vou ser uma mulher com cicatrizes, pescoço marcado, corpo violado, pele derretida. 

O amor não vai me curar, mas vai segurar minha mão se um dia eu conseguir me recuperar, e talvez vai me ensinar uma piada que valha a pena continuar viva só pra rir do seu lado. 

Eu te amo o suficiente para tentar me amar também.

14.05.2019

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Poustinia *

"Sumir" não deveria ser um sentimento que remetesse a fraqueza. 

Às vezes, sumir, mergulhar no silêncio, no vazio, pode ser bom pra você se recuperar, se reencontrar. 

Uma vez eu sonhei que estava morta. 
Mas eu sabia que estava. Logo, estava? Eu sabia que estava morta, mas eu me sentia bem. Ninguém havia me dito que era assim. Consciente. Eu estava morta. 
Mas eu estava viva. 
Num lugar, de uma escuridão aquecida, acolhedora. Não era a escuridão do medo, da cela, do cativeiro. Era como um útero. Proteção, calor. Silêncio. Eu estava ali, ocupando um espaço que não seria violado. Em que não seria violada.

Ali, pude me ouvir, pela primeira vez na vida. A minha voz real, pra mim mesmo. Sem possibilidade de fugir ou de recuar. Conversar comigo, sem as amarras ou expectativas de manter uma persona, perguntar, sem medo da resposta.

E eu fui imensamente feliz por alguns minutos, horas, dias, anos. Nunca senti tanta paz, no silêncio, comigo mesmo, sabendo que não tinha mais corpo, apenas presença e consciência. 

Sonhei isso. 
Acho que "sumir" é algo assim. Esse estado de silêncio. 

Longe das vozes, das expectativas, das exigências dos outros sobre mim, e porque não, de mim para mim mesma.

Não tenho mais medo do escuro, da solidão. 
Neste útero de silêncio eu chorei todas as minhas dores, gritei todos os meus medos, sangrei todas as minhas feridas.
Morri, consumida de desespero.
E dele renasci, renovada de mim.

(22.04.2019)

* Em termos de dicionário, poustinia significa deserto na língua russa. Aos poucos, porém, foi se enriquecendo de inúmeras outras conotações, entre as quais predomina o sentido de um local solitário, no qual as pessoas se refugiam no silêncio para rezar e meditar.

Sem título, sem nada

Insensato eu estar aqui, e viva.  Insensato, isso de sobreviver: mas cá estou, na aparência inteira.  Por onde vou deixo o rastro...