terça-feira, 14 de maio de 2019

Deixa eu te amar

Uma terapeuta me disse uma vez que é irônico o quanto eu amo as pessoas, e ao mesmo tempo não consigo me amar. 
Ela riu, como se o amor próprio fosse apenas uma piada. 
Eu também ri, mas em casa, chorei. 
Outras pessoas já me disseram que eu não poderia amar ninguém enquanto não aprendesse a me amar. 
Dessa vez, quem riu foi eu. 
A piada era eu. 

Eu lembro de me odiar com sete anos, meus diários lotados até as margens com críticas. Com oito anos, eu já tinha páginas escritas o suficiente para costurar, construir asas pra voar bem perto do sol, até que minhas lágrimas evaporassem e eu sentisse a cera das asas queimando os ombros e esculpindo-se sobre a pele. 

Eu tinha nove anos quando quis morrer pela primeira vez. Vinte quando finalmente achei uma solução: se eu me cortasse o suficiente, talvez a gravidade me deixaria ir. Mas ela não deixou, e eu embolei uma fronha de travesseiro ao redor do meu pescoço, apertando-a como as cordas que eu gostava de pular na minha infância. Eu ouvia meus batimentos cardíacos em meus ouvidos como um tambor, e então tudo desapareceu. Quase me convenci de que tinha conseguido partir. 

Quando comecei a escrever, derramava meu sangue em cada página, para me lembrar de que todas as coisas belas têm uma consequência. Eu esperava que a coagulação parasse, para que eu pudesse ir. 

E eu morri tantas vezes. 

Então quando eu digo pra você que te amar quase me faz pensar que a vida vale a pena, eu não estou brincando. 
Quando te digo que te amar quase faz eu me esquecer do quanto eu me odeio, não é simplesmente poesia. 

Te amar é fazer bom uso de todo o amor que eu esqueci de dar para eu mesma. 

Esse amor me lembra que se alguém consegue gostar de uma coisa morta dessa forma, se alguém consegue me abraçar e agradecer por eu conseguir abraçar de volta, se alguém consegue lidar com minhas pílulas, suportar os dias ruins, então talvez eu possa tentar respirar de novo. 

Porque o amor próprio nem sempre vem em primeiro lugar. Ou em segundo lugar. Ou nunca...

Deixa eu te amar. De longe, em silêncio, em segredo.
Deixa eu te amar. Mesmo que você não saiba, nem corresponda.
Deixa eu te amar. Te imaginar em meus braços e te acariciar sem te tocar.

Deixa seu amor ser meu porto seguro, ser a gaveta que esconde as coisas afiadas de mim, ser o corpo que carrega minha mente em colapso e me deita em uma cama de flores.

Porque talvez, mesmo que eu esteja morrendo, ainda consiga dançar com você. 

O amor não vai me curar, não vai tirar as coisas ruins do meu sangue – eu sempre vou ser uma mulher com cicatrizes, pescoço marcado, corpo violado, pele derretida. 

O amor não vai me curar, mas vai segurar minha mão se um dia eu conseguir me recuperar, e talvez vai me ensinar uma piada que valha a pena continuar viva só pra rir do seu lado. 

Eu te amo o suficiente para tentar me amar também.

14.05.2019

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