sexta-feira, 10 de maio de 2019

Poustinia *

"Sumir" não deveria ser um sentimento que remetesse a fraqueza. 

Às vezes, sumir, mergulhar no silêncio, no vazio, pode ser bom pra você se recuperar, se reencontrar. 

Uma vez eu sonhei que estava morta. 
Mas eu sabia que estava. Logo, estava? Eu sabia que estava morta, mas eu me sentia bem. Ninguém havia me dito que era assim. Consciente. Eu estava morta. 
Mas eu estava viva. 
Num lugar, de uma escuridão aquecida, acolhedora. Não era a escuridão do medo, da cela, do cativeiro. Era como um útero. Proteção, calor. Silêncio. Eu estava ali, ocupando um espaço que não seria violado. Em que não seria violada.

Ali, pude me ouvir, pela primeira vez na vida. A minha voz real, pra mim mesmo. Sem possibilidade de fugir ou de recuar. Conversar comigo, sem as amarras ou expectativas de manter uma persona, perguntar, sem medo da resposta.

E eu fui imensamente feliz por alguns minutos, horas, dias, anos. Nunca senti tanta paz, no silêncio, comigo mesmo, sabendo que não tinha mais corpo, apenas presença e consciência. 

Sonhei isso. 
Acho que "sumir" é algo assim. Esse estado de silêncio. 

Longe das vozes, das expectativas, das exigências dos outros sobre mim, e porque não, de mim para mim mesma.

Não tenho mais medo do escuro, da solidão. 
Neste útero de silêncio eu chorei todas as minhas dores, gritei todos os meus medos, sangrei todas as minhas feridas.
Morri, consumida de desespero.
E dele renasci, renovada de mim.

(22.04.2019)

* Em termos de dicionário, poustinia significa deserto na língua russa. Aos poucos, porém, foi se enriquecendo de inúmeras outras conotações, entre as quais predomina o sentido de um local solitário, no qual as pessoas se refugiam no silêncio para rezar e meditar.

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