eu vou ser sincera
eu quero sempre ser sincera
contigo e comigo
eu tô um bagaço
olheira, boca seca, falta de apetite
eu ando cansada demais
minhas costas doem muito
às vezes tenho a sensação
que perdi mesmo a cabeça
mas os dias continuam
e eu vou dando um jeito
de ir com eles
você percebe que chamam a gente
de forte o tempo todo
mas esquecem que somos
carne e osso?
eu não quero ter que fugir de mim
eu não quero ter que fugir de você
eu não quero ter que fingir
que sou inabalável
desde quando se fortalecer
é não cair?
conhecer as ladeiras
nem sempre evita
que a gente escorregue por lá
e estabaque a cara no chão
e tudo bem, tudo bem errar
ontem eu deitei na cama
fechei os olhos
e tentei esquecer
todos esses nomes
que moram em mim
são tantos andando aqui dentro
que fico alternando entre ser tão boa
e tão péssima nessa coisa de deixar ir
depois tentei lembrar do barulho das ondas
como me faz falta o desaguar
hoje eu só vou dar conta de cuidar de mim
não posso doar quando estou oca
eu amo a minha solidão
mas também preciso de abraço
de colo, de porre, de convite
de ajuda, de norte, de fé
comigo ninguém pode
ou eu é que não posso
com ninguém?
às vezes quando falo sobre desmoronar
dizem pra deixar pra lá
eu nunca vi tristeza passar
sem ser sentida
ignorar as feridas
não vai estancá-las
tem que parar, olhar
lavar, passar remédio
e soprar, não tem?
a poesia não quer dizer
que sobreviver é artístico
sobreviver dói e arranca sangue
é que as palavras tem dessas
de acalentar
não se iluda
hoje eu não vou pra fronte da luta
nem precisa me chamar
eu não desisti não
só tenho que me restaurar
então vem sentar no sofá comigo
falar besteira e dar risada
cozinhar alguma coisa
conversar sobre as galáxias
até seis da manhã
curar começa quando
dizemos nossas verdades.
“Nesse caderno sei que ainda estão / Os versos seus / Tão meus que peço / Nos versos meus / Tão seus que esperem / Que os aceite em paz / Eu digo que eu sou / O antigo do que vai adiante / Sem mais, eu fico onde estou / Prefiro continuar distante...”
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