quarta-feira, 26 de junho de 2019

De um dia bem otimista (circa maio 2019)

eu sinto e vejo

a minha cura
é processo lento
e mesmo nas noites
em que eu não a alcanço
alguém aparece pra me lembrar
que já não há tempo para quebrar
e sem jeito me levanto
ainda com as pernas fracas
e os olhos inchados

antes tivesse ficado
um pouco mais no chão
e aprendido sobre o seu gosto
decorado o caminho de volta
da ponta do precipício
impuseram a pressa 
no meu cicatrizar

a minha cura
é abstrata e confusa
não tem linearidade
se ontem sorri levezas com os olhos
hoje a memória me engole e desestrutura

olheiras provam que eu
estou sempre contendo enchentes
me adaptando novamente ao silêncio
depois de tanto gritar
não é que eu fique sem assunto
é que às vezes é melhor não dizer nada
deslizando entre esquecimentos
seleciono as injustiças
eu prefiro saber 
o que perdi

a minha cura
não é de toda estancada
ainda sangro
ainda perco
ainda estou construindo
uma possível saída
por isso a poesia
o verso de mar bravo
placas para não mergulhar
não hoje
é esse o perigo
em ser de verdade:
distanciamento

a minha cura
é a paciência com a minha solidão 
a insistência com as brechas
ser esmagada sem previsão
mas ser cobrada pelo cuidado
que não recebo
eu percebo
meus significados não se dão facilmente
e me exigem explicações que se dissipam
a culpa não é minha se estamos
viciadas em dicionários, frases prontas
soluções instantâneas e teorias
eu sou algo novo todos os dias
mesmo partindo do antigo

eu sinto e vejo
a minha cura
que por vezes enlouquece
e me concentro não em resistir
mas em puxar o ar e dar abertura
as minhas contradições 
aos meus próprios presságios
eu já sei ser sol no escuro
às vezes piso em meu próprio abrigo
fujo e deixo notícias somente comigo
e sem adornos nos estilhaços
continuo me curando
continuo viva.

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