Olhar no espelho nunca é fácil: é sempre enfrentar uma imagem que eu não quero ver.
Qualquer coisa é motivo para me depreciar, até uma inofensiva pinta.
Mas não só isso.
Eu perdi a confiança em tudo que antes eu fazia bem: escrever, estudar, dançar. Perdi a confiança até no simples ato de falar.
Não sei mais como colocar as palavras e muitas vezes acho que ninguém quer ouvir o pouco que tenho pra falar.
Não quero entrar em outras dores como a tristeza profunda, o desânimo, a falta de prazer nas coisas, a vontade de me autoflagelar.
Imagine o que é vivenciar tudo isso, consumindo-se por dentro, enquanto na aparência nada parece estar errado: lábios corados, ar saudável.
Apenas você sabe que, lá nas camadas profundas do corpo, a mente morde silenciosamente o coração.
Me sinto morta.
Queria guardar comigo a esperança de atravessar de volta o rio Estige, pegar a barca de Caronte no sentido inverso e pôr o pé novamente no mundo dos vivos.
Mas me sinto morta.
Não faz muito tempo desde que quase atravessei o rio de escuras águas do Hades. Foi por um triz. Não fosse uma mão inesperada a me segurar na beira do abismo, eu estaria a esta hora pagando o tributo ao barqueiro mitológico.
Agora não caminho mais rumo ao abismo.
O abismo me alcançou.
De tanto desejar a morte, sua semente instalou-se em meu coração e brotou, partindo-o ao meio.
Sinto dor, meio, frio e solidão.
Eu sou toda abismo.
Cada batida, uma pontada mais funda, um segundo a menos.
Não tenho mais lágrimas a chorar.
Nada a pedir.
Nada a esperar.
Nada a reclamar.
Só respiro fundo.
E espero.
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