pretinha,
a gente continua tendo muito em comum
existir de maneira mínima não nos interessa
nem nos basta
qualquer espaço ainda parece pouco
pra comportar todas essas
nossas partes imensas
somos mulheres densas
e eu sei que de madrugada você tem medo
de estar só, de não conseguir, de se entregar
e fica pensando quando é que vai mudar
de ares, de passado, de estado
me diz, o que você faz quando perde o chão?
quantas ausências se acumularam na sua retina?
o quanto você ainda consegue se doar?
a leveza não é algo permanente
às vezes ela vem e logo vai embora
temos que relembrar
como ela chegou e o porquê de ter saído
foi assim que aprendi a estar bem comigo
eu não só decorei o que me traz paz
como também sei bem o que me tira
pretinha,
será que o barulho das correntezas dos rios
não tem muito mais a nos dizer
que todas essas vozes
que moram na gente
mas não são nossas
será que nós não estamos buscando
um jeito, um toque, um sinal
que venha como um abraço quando
estamos chovendo torrencialmente
cansadas até mesmo de dar o nosso melhor
sentimos na boca do estômago a saudade do comum
de se jogar na rede de casa, de um beijo longo
copos cheios e cheiros no pescoço
ter quem não fuja
quando nosso peito alaga
ter um sono manso sem pensar na estratégia de guerra
dos amanhãs
pretinha,
o problema não é você continuar acreditando
é que nem todas as mãos podem abrigar
o seu poder ancestral
pretinha,
sei que pareço sempre armada
cheia dos patuás e de cara fechada
se você soubesse de tudo que passei
compreenderia que aprendi a me proteger
porque já me causaram tantos danos
foram anos pra eu me reencontrar
me gostar, me enxergar, buscar equilibrar
me roubaram tanto
agora não mais
e te digo, a dor não me fez bruta
mas sou marcada, difícil encarar as cicatrizes
de uma mulher selvagem que tem cada poro
em constante luta
pretinha,
me procure quando se perder e quando se encontrar
perdidas podemos esbarrar os nossos sonhos
e nossos caminhos de fé
inteiras podemos transbordar
nos demorar, nos elevar
meu bem,
a cura vem mesmo
devagar.
“Nesse caderno sei que ainda estão / Os versos seus / Tão meus que peço / Nos versos meus / Tão seus que esperem / Que os aceite em paz / Eu digo que eu sou / O antigo do que vai adiante / Sem mais, eu fico onde estou / Prefiro continuar distante...”
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