segunda-feira, 15 de julho de 2019

Criando boas lembranças

Fiz uma bucket list.
Descartei-a quase por completo.
Era fantasiosa. Surreal.
Eram os desejos de uma vida inteira.
Mas não há tempo. Não há forças.

Criei uma nova lista.
Tem apenas dois itens:
1 - Ver o pôr do Sol na Praia Vermelha
2 - Criar boas lembranças

Como as pessoas vão lembrar de mim quando eu não estiver aqui? 
Espero que da melhor maneira possível.

Então a minha bucket list está acontecendo, dia após dia.
Ver bons amigos.
Falar besteira.
Contar piada.
Rir de doer a barriga.
Gargalhar alto sem vergonha.
E no final, aquele abraço um segundo mais longo.
(Porque pode ser o último!)
Pra eles, apenas mais um encontro de amigos.
Pra mim, secretamente, uma preparação da minha partida.

Em alegria, em amor. Sem lágrimas, só risadas.
É só isso que eu vou levar.
É isso que eu quero deixar.



quinta-feira, 11 de julho de 2019

Mandando (e recebendo) a real

Participação especial: minha Sombra


Olhe pra você 

Uma mulher violada 

Uma mulher despedaçada 

Tantas vezes remendada 

Abatida pela dor

Sem brilho nos olhos

O que restou de você além de farrapos

Além da sombra do que você foi no passado?

Abandone as esperanças 

De ser amada 

De ser desejada 

De ser querida 

Abandone as esperanças 

De que você voltará a ser a mesma de antes 

Pra que lutar se tudo o que você consegue

É sentir mais dor ?

Pra que amar se tudo o que você consegue

É partir seu coração cada vez mais?


Olhe só pra você

Se prendendo a uma vida 

Que já não tem mais nada de bom

Pra te proporcionar 

Se agarrando a promessas

Que não poderá cumprir 

Fazendo planos 

Que não poderá concretizar 

Olhe só pra você 

Sem coragem 

De colocar um ponto final em tudo

domingo, 7 de julho de 2019

Exílio

Toda noite, ao deitar, me sinto mais atenta a três coisas: o tempo, a morte, e a solidão. 

Exilada de mim mesma, a sensibilidade aguça. O tempo ganha um valor diferente, a solidão se torna inegociável, e a morte vem ter contigo. E não. Não são sentimentos de pavor. É que você costura uma outra camada no tecido dos sentires. Você aprofunda, e ao mesmo tempo, evapora. 

Neste lugar, percebi-me etérea. Nada. Sopro. Fumaça, translúcida, contínua, desse frágil pavio ao qual chamamos vida. Exilar me fez ver. E, vendo, passei a valorizar umas coisas, e outras, se perderam. 

Perdi a mim mesma. Olho pra trás. Não há caminho. Não há pra onde voltar.

(Julho/2019)

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Mais uma carta de Adeus. (será a última? quem sabe?)

Olhar no espelho nunca é fácil: é sempre enfrentar uma imagem que eu não quero ver. 

Qualquer coisa é motivo para me depreciar, até uma inofensiva pinta. 

Mas não só isso. 

Eu perdi a confiança em tudo que antes eu fazia bem: escrever, estudar, dançar. Perdi a confiança até no simples ato de falar. 

Não sei mais como colocar as palavras e muitas vezes acho que ninguém quer ouvir o pouco que tenho pra falar. 

Não quero entrar em outras dores como a tristeza profunda, o desânimo, a falta de prazer nas coisas, a vontade de me autoflagelar.

Imagine o que é vivenciar tudo isso, consumindo-se por dentro, enquanto na aparência nada parece estar errado: lábios corados, ar saudável. 

Apenas você sabe que, lá nas camadas profundas do corpo, a mente morde silenciosamente o coração.

Me sinto morta.

Queria guardar comigo a esperança de atravessar de volta o rio Estige, pegar a barca de Caronte no sentido inverso e pôr o pé novamente no mundo dos vivos.

Mas me sinto morta.

Não faz muito tempo desde que quase atravessei o rio de escuras águas do Hades.  Foi por um triz. Não fosse uma mão inesperada a me segurar na beira do abismo, eu estaria a esta hora pagando o tributo ao barqueiro mitológico. 

Agora não caminho mais rumo ao abismo. 
O abismo me alcançou.

De tanto desejar a morte, sua semente instalou-se em meu coração e brotou, partindo-o ao meio.

Sinto dor, meio, frio e solidão.
Eu sou toda abismo.

Cada batida, uma pontada mais funda, um segundo a menos.

Não tenho mais lágrimas a chorar.
Nada a pedir.
Nada a esperar.
Nada a reclamar.

Só respiro fundo.
E espero.

Ah, se você soubesse quão longas são as respostas que eu tenho para as suas perguntas... mas me falta a coragem de falar, então escrevo.

eu vou ser sincera
eu quero sempre ser sincera 
contigo e comigo
eu tô um bagaço
olheira, boca seca, falta de apetite
eu ando cansada demais
minhas costas doem muito
às vezes tenho a sensação
que perdi mesmo a cabeça
mas os dias continuam
e eu vou dando um jeito
de ir com eles
você percebe que chamam a gente
de forte o tempo todo
mas esquecem que somos
carne e osso?
eu não quero ter que fugir de mim
eu não quero ter que fugir de você
eu não quero ter que fingir
que sou inabalável
desde quando se fortalecer
é não cair?
conhecer as ladeiras
nem sempre evita
que a gente escorregue por lá
e estabaque a cara no chão
e tudo bem, tudo bem errar

ontem eu deitei na cama 
fechei os olhos
e tentei esquecer
todos esses nomes
que moram em mim
são tantos andando aqui dentro
que fico alternando entre ser tão boa
e tão péssima nessa coisa de deixar ir
depois tentei lembrar do barulho das ondas
como me faz falta o desaguar
hoje eu só vou dar conta de cuidar de mim
não posso doar quando estou oca

eu amo a minha solidão
mas também preciso de abraço
de colo, de porre, de convite
de ajuda, de norte, de fé 
comigo ninguém pode
ou eu é que não posso 
com ninguém?

às vezes quando falo sobre desmoronar
dizem pra deixar pra lá
eu nunca vi tristeza passar
sem ser sentida
ignorar as feridas
não vai estancá-las
tem que parar, olhar
lavar, passar remédio 
e soprar, não tem?
a poesia não quer dizer
que sobreviver é artístico
sobreviver dói e arranca sangue
é que as palavras tem dessas
de acalentar

não se iluda 
hoje eu não vou pra fronte da luta
nem precisa me chamar
eu não desisti não
só tenho que me restaurar

então vem sentar no sofá comigo
falar besteira e dar risada
cozinhar alguma coisa 
conversar sobre as galáxias
até seis da manhã

curar começa quando
dizemos nossas verdades.

Uma oração de súplica - Sobre saber ser tudo, mesmo se sentindo ser nada (Imbolc 2019)

se sou raio, 
que eu saiba iluminar
a minha estrada
nesse breu
que eu saiba golpear
mesmo no escuro
me emprestem a retina
de minhas ancestrais
que enxergaram fé
quando tudo era medo

se carrego relâmpagos
nas veias,
que eu saiba 
que o que corre em mim
tem brilho
tem jeito
tem potência
eu sou capaz de fazer
a terra tremer

se sou vento,
que eu passe pelos vãos
dos seus dedos
que nada possa 
me segurar
me limitar
me fazer
menos presente
vendaval não pede licença
pra escancarar as janelas
e o coração

se sou brisa leve,
que eu saiba me dividir
com aqueles que sorriem
ao me ver existindo
que eu saiba sustentar o amor
dentro do peito
dentro do abraço de quem me diz
que resistiremos
que lutaremos
que seremos
assim seja

se sou furacão,
então eu posso destruir
antes de ser destruída
e se preciso for 
tiro absolutamente tudo do lugar
e defino como vai ser a partir
de agora

se sou sagrada,
que eu me benza com folhas
e búzios e velas e mãos entrelaçadas
quando dizem eparrei
a força que me invade
não me permite
o silêncio

se sou fogo,
que eu queime
antes de arder
quem sabe ser cinza e ser chama
sabe sobreviver

se sou nuvem carregada,
que eu me despeje e desague
e que mesmo que eu termine 
chuva de granizo
nasci oceano
sou mais inconstante que o mundo
sou onde tudo começa e termina
sou a história que eu quiser contar
sou revide antes mesmo que alguém 
tente me atacar
sou estrondo de trovão
meus pés descalços tocam o chão
estremeço 
mas sou profunda demais
pra acabar.

De um Eu paralelo para Mim mesma (sem data)

pretinha,
a gente continua tendo muito em comum
existir de maneira mínima não nos interessa
nem nos basta
qualquer espaço ainda parece pouco
pra comportar todas essas
nossas partes imensas
somos mulheres densas
e eu sei que de madrugada você tem medo
de estar só, de não conseguir, de se entregar
e fica pensando quando é que vai mudar
de ares, de passado, de estado
me diz, o que você faz quando perde o chão?
quantas ausências se acumularam na sua retina?
o quanto você ainda consegue se doar?
a leveza não é algo permanente
às vezes ela vem e logo vai embora
temos que relembrar
como ela chegou e o porquê de ter saído
foi assim que aprendi a estar bem comigo
eu não só decorei o que me traz paz
como também sei bem o que me tira

pretinha,
será que o barulho das correntezas dos rios
não tem muito mais a nos dizer
que todas essas vozes
que moram na gente
mas não são nossas
será que nós não estamos buscando
um jeito, um toque, um sinal
que venha como um abraço quando
estamos chovendo torrencialmente
cansadas até mesmo de dar o nosso melhor
sentimos na boca do estômago a saudade do comum
de se jogar na rede de casa, de um beijo longo
copos cheios e cheiros no pescoço
ter quem não fuja
quando nosso peito alaga
ter um sono manso sem pensar na estratégia de guerra
dos amanhãs

pretinha,
o problema não é você continuar acreditando
é que nem todas as mãos podem abrigar
o seu poder ancestral

pretinha,
sei que pareço sempre armada
cheia dos patuás e de cara fechada
se você soubesse de tudo que passei
compreenderia que aprendi a me proteger
porque já me causaram tantos danos
foram anos pra eu me reencontrar 
me gostar, me enxergar, buscar equilibrar
me roubaram tanto
agora não mais
e te digo, a dor não me fez bruta
mas sou marcada, difícil encarar as cicatrizes
de uma mulher selvagem que tem cada poro
em constante luta

pretinha, 
me procure quando se perder e quando se encontrar
perdidas podemos esbarrar os nossos sonhos
e nossos caminhos de fé
inteiras podemos transbordar
nos demorar, nos elevar

meu bem,
a cura vem mesmo
devagar.

Sem título, sem nada

Insensato eu estar aqui, e viva.  Insensato, isso de sobreviver: mas cá estou, na aparência inteira.  Por onde vou deixo o rastro...