quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Sem título, sem nada


Insensato eu estar aqui, e viva. 

Insensato, isso de sobreviver: mas cá estou, na aparência inteira. 


Por onde vou deixo o rastro de um sangue denso e triste que não estancará jamais.


Sei e não sei que tudo isso é impossível, que a Morte é um abismo sem pontes no qual anseio mergulhar em busca de descanso.

Sobrevivo, mas pela insensatez dEla que reluta em levar-me.


Tenho a fadiga de muitos séculos. 

Outrora contentaria em deitar-me num sofá, cabeça em algum colo que me acolhesse, e naquele silêncio encontrar a paz. 

Mas estou cansada. 

Dilacerada no corpo, no coração e na alma, tendo renascido mil vezes pra morrer mil e uma, tenho saudade de mais paz do que todo o amor sem limites deste mundo poderia me dar.

Antes eu dizia estar triste, e sem motivo. 

O motivo agora sei: essa vida é um exílio e minha alma sente uma dor que nada consegue aplacar.

Por isso é preciso que eu parta.


Não digam que isso passa, não digam que a vida continua, que o tempo ajuda, que afinal tenho amigos e um trabalho a fazer. Não me consolem. Não digam que tenho livros a escrever e viagens a realizar. Não digam nada. Vejo bem que o sol continua nascendo nesta cidade onde vim lamber minha ferida escancarada. Mas não me consolem: da minha dor sei eu.


A Morte ainda não acredita em mim, ignora meus chamados, e talvez isso me salve por enquanto. 


Levantar-me da cama cada dia é um ato heróico, escovar os dentes, atender o telefone, tomar café. Mas faço tudo isso: falo, ando, recebo visitas. 


De algum secreto lugar me vem essa maldita força para erguer a xícara, de sair ao Sol, até sorrir quando alguém me diz: "Você hoje está com a cara ótima", quando penso se não doeria menos jogar-me de um penhasco.


Na frente do rosto afivelei a máscara para que os outros me suportem: atrás dela, o redemoinho do sangue da solidão borbulha sem parar. Minha dor ferve em mim: todo o resto é mentira.


Não me matei ainda, apenas porque não posso fazê-lo. Minha carne anseia pelo beijo cortante da lâmina libertadora. Beijo que não terá jamais. Talvez o último (enfim!) de uma grande lista de desejos irrealizáveis.


Só pela teimosia dos que esperam uma visita que não vem, reajo; penteio os cabelos, passo um lápis nos olhos, pois os amigos dizem que a vida continua. 

Eu, tudo o que queria era trocar o tempo que me resta e que pesa tanto por um instante em que pudesse repetir alguns momentos de felicidade. De tão distantes, nem mesmo alcanço a lembrança deles. Não tenho sequer o consolo das boas memórias.


Olhei-me longamente no espelho tentando encontrar uma réstia de luz no meu olhar, algum traço de vida em mim, e não achei nenhum. Entre as rugas a mais e olhar mais triste, não me reconheci. Perdi-me pra sempre, irremediavelmente. 


Deitei-me no chão e chorei amargamente por duas horas, sabendo que mesmo que chorasse dois anos ou dois séculos, eu não voltaria mais.


Hoje me escondo sob as aparências: a roupa está correta, o cabelo sem desalinho, nunca fui de grandes luxos. Todo mundo acha que estou indo muito bem, tendo em vista a brutalidade de tudo. Tudo mundo acha que estou indo muito bem, tendo em vista ter sobrevivido, golpe após golpe.

Mas já estou morta por dentro. Seca e estéril, após chorar até a última gota de lágrima que restava em mim.

Na verdade sou como um desses bichos a que arrancaram as entranhas e meteram estopa e palha corpo adentro para que pareçam vivos e até alertas.


A morte, velha amiga, me sorri: agora tem do seu lado pessoas que me foram tudo nesta vida. Tem mãos macias a velha senhora, traiçoeiras e leves mas reveladoras: anseio pelo dia que me recolherá também para debaixo do seu manto e haverá esplendor.


Nada deixo pendente: conheço mais a mim e aos outros; me entreguei a paixão até me consumir por completo em sua chama; aprendi a amar melhor a todos e entendi que a morte pode ser também um sonho. 


Mas não se iludam: esta que agora escreve, sorri, dança e tantas vezes quer morrer, não é a de antes: paixão e morte me derrubaram e caminham sobre mim com suas grandes patas quando ninguém percebe.


Não falem comigo. Principalmente, não me toquem. Não posso suportar o carinho, o calor, o abraço. Não consigo suportar nada que me dê algum fio de esperança. Não quero de novo ceder a uma migalha de sonho. Não me chamem. Não posso olhar pra trás. Não me recarreguem. Quero consumir-me.


Finjam que não vêem se tenho um jeito absorto e distraído, se me perco em melancolia, se não gargalho alto como antigamente, se pareço esgotada e sem graça como nunca fui. Façam silêncio ao meu redor. Não me interessa nada, nem o cotidiano nem o místico. Não quero discutir a economia nem a política nem os grandes mistérios da eternidade. Levo meu coração no peito como quem carrega nos braços para sempre uma criança morta.


Morte, minha amiga, que tanto desejo e anseio: quando se desfizer escura a noite desta vida, quero enxergar pelos teus olhos, amar através do teu amor as pessoas e as coisas que ficarão. 


E quando o meu ser se dissolver no todo, minhas cinzas se espalharem pela terra, e a lembrança do som do meu sorriso se calar na mente dos que ficaram, talvez então eu possa encontrar a paz, liberta da dor de ser eu.

domingo, 3 de novembro de 2019

Samhain

E chegou o dia em que o véu entre os mundos fica mais fino e os portais se abrem...

Antes de ir para o Samhain tive muita dificuldade de ir. Queria realmente ficar deitado e não estar com outras pessoas. Tomei um banho, fiz uns paranauês e consegui ir, mas assim que cheguei minha vontade inicial era ir embora. Só depois de um tempo consegui realmente estar ali e ficar calma. 

Durante o ritual o momento marcante foi o Círculo dos Mortos. Meu corpo tremia inteiro e eu fiquei bem mal. Foi a conta da Senhora da Face Pálida tocar minha testa e tudo isso chegar como aquelas ondas que te arrastam para o fundo da água. Demorei um pouco para conseguir colocar a oferenda no chão. Depois disso eu fechei os olhos e fui parar em um jardim florido e enevoado com muitas pessoas. Aqueles que se aproximaram de mim todos meus amados que partiram.  Neste momento eu derramei em lágrimas e comecei a falar de forma maluca e desordenada como se não tivesse tempo pra falar tudo o que precisava e eu chorava e falava, falei da minha dor, da vida, de como eu me sentia sozinha sem ter ninguém pra conversar, de como os amava. Joana sorriu e colocou as mãos sobre meus ombros e disse: 

“Minha menina, nada disso importa aqui onde estamos. O que importa é só a história dos atos que fizemos, então nada disso importa. Você sempre foi uma mulher maravilhosa, consciente e correta, mesmo cometendo erros. Mas agora você precisa largar este peso que foi colocado por nós e por outros nos seus ombros, precisa largar este peso do mundo que você carrega nas costas. Isso não é você. Já é hora de não ser mais definido por este peso que tanto te cansa. Essas feridas não te definem, isso não é você.”

Minhas avós então me disseram “Deixe aqui conosco este peso e daqui pra frente pense em você, viva por você, viva sua vida”. 

Eles me tocaram nos ombros, me abraçaram e nos despedimos. 

E ali no mundo dos mortos eu não queria voltar. Não estava ouvindo mais nada, só sentindo aquele local florido, ensolarado e calmo e eu deitei e não queria voltar. Por um momento eu não senti mais dor, medo, receio da opinião alheia, não senti mais depressão, mágoa, tristeza, nada, apenas paz. E eu não queria voltar, nada mais tinha importância eu só queria ficar ali deitada e dormir naquele local. 

Foi então que me veio o rosto da Morgana e eu vi a mão dela, só a mão no meio da nevoa e peguei. Voltei para este mundo e vi que todas as meninas tinham ido para o mundo dos vivos e parte dos meninos. Senti uma dor tão forte, um pesar tão grande, que eu caminhei no automático até a Deusa Donzela (Ishtara) que me disse que seria um ano de sucesso, e depois sentei no sofá. 

Morgana viu o quanto eu estava mal e me abraçou e neste momento eu chorei de novo, chorei muito. Eu estava de volta sentindo toda aquela dor novamente. 

Isso nunca tinha acontecido. Este pesar por estar vivo, pelo menos não com esta intensidade. Não foi o fato de reencontrar minhas amadas que partiram. Foi sentir a paz do mundo dos mortos e a dor de estar vivo. Eu nunca tinha sentido tão forte vontade de morrer como senti ontem. 

Uma pausa de descanso entre tanta coisa turbulenta que se passa dentro de mim, uma pausa de tudo isso que é a vida. E por isso foi tão horrível ser arrancado disso e voltar para a minha “corporeidade” e tudo o que faz parte. Esta experiência  me mostrou a complexidade e o tamanho da dor e cansaço acumulado que venho carregando.

Hoje estou me sentindo muito estranha, vazia. Vou apenas deixar fluir isso e depois pensar em tudo. 

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Pra quem fica, um consolo

Fiz um post no Face sobre suicídio.
Não será meu último post; mas espero que ele seja lembrado.
Espero que alguém entenda a mensagem que deixei subentendida: sigam em frente em paz! O que quer que eu faça comigo, ou o quer que aconteça com a vida, TUDO será culpa exclusivamente minha.

Nada me faltou. Nem amor, nem carinho, nem atenção. 
Pena que ninguém lerá essas palavras. 
Queria muito dizer que, depois da minha partida, a terra continuará girando e o Sol continuará nascendo a cada dia.
Que vocês chorarão um dia, uma semana, um mês e que depois a vida continuará como sempre.
Que a morte não é o fim pra quem fica.

Liberto todos vocês da culpa, meus amores! Levo comigo o carinho que recebi de vocês...

sábado, 26 de outubro de 2019

Me abraça

eu sempre vou ser essa pessoa sensível
que carrega suas crenças sobre os ombros e que busca ser o melhor para o outro, pois meus olhos e meu corpo estão cansados de só sentir as marcas que o mundo faz questão de deixar pela pele e que não são tão fáceis de superar. 
então, por favor, me abraça.
me abraça não como quem tem o poder de cura ou de entender essa bagunça que eu sou. 
eu sei que há coisas que soam como “pedir demais”, mas me toca. 
toca meu rosto como quem numa tentativa simples deseja apenas mostrar sua presença. 
enxuga a lágrima que teima em escorrer pelo meu rosto ou encosta minha cabeça no teu peito para que eu sinta o conforto de não estar só. 
deixa eu te sentir.
rasga o silêncio, mesmo que seja para falar que não sabe o que fazer. 
por favor, perceba que eu busco uma base onde possa descansar e que hoje, mais do que nunca, eu desejo achar em você.
ouça atentamente a batida do meu peito e sinta minha pele quente que evidencia o quanto eu quero apenas ser sua e seguir em paz.
me abraça.
por favor, me abraça. 
aperta meu corpo contra o teu enquanto eu digo que eu tenho medo de não saber lidar com tudo aquilo que sinto. me abraça enquanto eu sufoco meu grito de desejo por ti.
eu tenho buscado não me afogar nesse mar em ressaca de pensamentos ruins que teimam em impulsionar meu corpo para distante da razão. 
eu quero ficar bem, eu quero estar bem, eu quero sentir o conforto e respirar aliviado tendo a certeza de que tudo vai ficar bem, independentemente do que aconteça.

então, por favor, me abraça.
e não desiste de mim.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Mas eu sou medo e desejo, eu sou feita de silêncio e som...

Cada voz que canta o amor não diz
Tudo o que quer dizer
Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração
Silenciosamente eu te falo com paixão
Eu te amo calado
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncios e de luz
Nós somos medo e desejo
Somos feitos de silêncio e som
Tem certas coisas que eu não sei dizer

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

De volta ao lugar de onde nunca saí

Poeira assentando
À minha vida as coisas vão voltando ao normal
A música acabou 
As luzes se apagaram 
O show chegou ao fim

O mundo gira 
A vida prossegue 
O tempo corre

Obrigada estou 
A enfrentar o vazio em mim
Não há mais lágrimas a chorar 
Não há mais sangue pra escorrer 
Não há mais lamento a gritar 
Sou corpo vagando em suspenso 
Pulsando indolor e inutilmente 
Até que se faça concreta
A morte que já existe dentro de mim

domingo, 15 de setembro de 2019

Sufocada pelo peso do silêncio

Não existiria som 
Se não houvesse o silêncio 
Não haveria luz 
Se não fosse a escuridão 
A vida é mesmo assim, 
Dia e noite, não e sim... 

Cada voz que canta o amor não diz 
Tudo o que quer dizer, 
Tudo o que cala fala 
Mais alto ao coração. 
Silenciosamente eu te falo com paixão... Eu te amo calado, 
Como quem ouve uma sinfonia 
De silêncios e de luz. 
Mas somos medo e desejo, 
Somos feitos de silêncio e som, 
Tem certas coisas que eu não sei dizer... 

A vida é mesmo assim, 
Dia e noite, não e sim... 
Eu te amo calado, 
Como quem ouve uma sinfonia 
De silêncios e de luz, 
Mas somos medo e desejo, 
Somos feitos de silêncio e som,
tem certas coisas que eu não sei dizer...  
E digo. 

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Quem disse?

quem disse que eu quero sair dessa, eu quero esquecer isso tudo,

derreter, morrer, agradecer à nossa senhora da pequena morte e 

dormir uma dormidinha  antes de começar tudo de novo.

e de novo. e de novo e de novo. começo a perceber não há saída 

senão se entregar e se entregar sabendo que tudo me espera.


mas eu não quero esperar. essa angústia me paralisa. a dor me incapacita. queria não acordar mais. queria cegueira e surdez. queria não acordar mais. nunca mais. as coisas ruins vão ocupando os espaços livres e depois os ocupados e depois tudo, até o ar, enquanto eu sufoco sozinha no silêncio. não tenho forças para brigar contra isso nem contra nada. não tenho nem voz. 

mas tem um monte de coisas que precisam ser feitas lá fora, então eu vou, vou fingir toda a sanidade, vou sorrir e fingir, vou cumprir os protocolos, as coisas que precisam ser feitas. 

vou me desviar de tudo e depois voltar para casa insalubre e tentar esquecer quem eu sou.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Silêncio

não é luto. 
não é que eu queira. 
simplesmente me calo.  
quase muda. 
a solidão que não passa. 
quase passa. 
as noites que não tem mais hora de começar e uma vontade que beira o incontrolável de fechar os olhos e ser levada pela mão, levada até algum lugar, nem que seja até a cama quando durmo no sofá ou quando fico presa sem conseguir dormir, acordada sem fazer nada, fazendo nada no automático até a exaustão, até os ombros endurecerem, até eu endurecer inteira junto com o ar que também fica espesso. 

aprendi que não existem certezas - e desaprendi com o tempo para sobreviver. as unhas descascam, os pés acordam gelados, as pontas dos dedos ficam roxas e as olheiras não se vão. 

uma pausa. 
alguns delírios. 
a falta do que nunca tive. 
uma mistura de saudade, desesperança, resignação e o peso do tempo passando e cada momento escorrendo pelo dedos sem piedade. 
só mais um capítulo do que já passou e do que está por vir. 
sob o peso da dor, agora me calo com os olhos baixos; é melhor ficar em silêncio quando não há nada a dizer.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Saudades de mim

Que saudade. 
Saudade de quando era eu, meu computador e meus gatos contra o mundo, numa fúria e um vigor que eu nunca mais vi, porque eu nem sei mais quem eu sou. 
Que saudade de mim. 
A vida nunca foi tão difícil e tão bagunçada e caótica e triste, triste, melancólica, tensa, me tornei uma pessoa que aperta os dentes, morde as bochechas e esconde as mãos no meio das pernas cruzadas. Essa não sou eu. 
Quem é essa aqui agora? 
Eu sei quem eu era. E eu gostava de quem eu era. 
Essa mina aqui eu não gosto. Não sei quem é, não sei o que ela vai aprontar na próxima noite, o próximo ataque que ela vai ter, a próxima crise, o próximo sufoco que ela vai passar, a dor, meu deus a dor. Que medo eu tenho dela... como tudo fica escuro quando ela vem...

Quem é essa que habita o meu corpo agora? Eu não conheço, não gosto e não consigo expulsá-la. Alguém por favor me ajuda porque sozinha eu não estou conseguindo. 
Que saudade de mim. 
Me tornei uma pessoa tensa, gelada, dedos gelados, ombros tesos, dentes cerrados. Timidez num corpo de pavão. Ninguém me salva, ninguém me inspira, ninguém me chama, ninguém me olha. Eu não me salvo. Estou lentamente enterrando a minha vida. Eu sempre soube que um dia não seria tão fácil escolher entre a vida e a morte.
Agora eu não tenho mais escolha. Estou presa aqui por uma promessa.
Tudo me foi tirado de mim, não tenho mais nada a perder, e como todo mundo sabe as pessoas mais perigosas são aquelas que não têm nada a perder. 
Mas eu não posso mais me machucar. Estou presa nesse corpo, nessa vida.
E não sei o que fazer com ela. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Por trás das risadas

Me desculpe por estar vivendo dentro da minha cabeça.

Me segurando em palavras que eu ainda não disse.

Eu estou cansada, me culpando por coisas que não vi.


Você precisa saber que estou buscando minha paz.


You can't help me.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Sem mais despedidas

Já fiz tantas e tantas despedidas.
Já escrevi tantas cartas de adeus.
Já dei tantos abraços sabendo que eram os últimos...
Já pedi perdões que não poderão me ser dados.
O que podia ser dito já foi dito.
O que não pode ser dito, levarei comigo.

Partirei sem aviso, sem alarde.
Em silêncio, só espero o momento certo.
Sem mais despedidas.

Cansada...

o fio da luz do sol vazando pelo pequeno espaço entre as cortinas tenta trazer um pouco de claridade ao quarto. já passa de meio dia e o peso do meu corpo ainda faz pressão sobre a cama, enquanto o barulho do ventilador tenta cortar o silêncio. 

eu me sinto sozinha.
tem aquele choro preso na garganta e o medo de tentar colocar para fora toda essa confusão. 
eu penso em te mandar alguma mensagem, mas não quero transparecer o desespero e o medo.
eu respondo as mensagens da minha mãe falando que tá tudo bem e tento acreditar que é só um momento de desespero que eu preciso aguentar sozinha.
eu peço calma. 
eu pressiono meu corpo cada vez mais apertado como se através do meu abraço eu conseguisse trazer o conforto de que as coisas vão ficar bem. 
eu me pergunto, incansavelmente, como eu cheguei aqui. em que momento as coisas desandaram, eu perdi o controle e simplesmente estou aqui entregue ao nada.
eu tenho que levantar.
já perdi a manhã e não aguento mais tentar me distrair com os joguinhos no celular.
as redes sociais não foram feitas para desabafos desesperados que podem ser lidos como a necessidade de chamar atenção. então, eu fico em silêncio.
eu explodo por dentro.
eu transbordo um pouco e deixo as lágrimas escorrerem no travesseiro molhado. 

eu sei que as coisas vão se ajeitar.

mas tem eu.
tem essa bagunça toda aqui.
tem todo esse desespero explodindo dentro de mim.

e isso. 
essa dor. 
cada vez maior.
cada vez pior.
cada vez por mais tempo.

essa dor parece que nunca vai ter um fim.

Sobre me amar - e não conseguir

eu sinto o peso do cansaço que me pressiona  e tento organizar de maneira calma e precisa esse turbilhão de coisas que se alojam na minha cabeça. 

eu não olho meu corpo, pois aprendi que ele apenas seria caminho e não lar. 
não há necessidade de cuidar daquilo que só serve para ser usado, tocado, abusado e descartado. 
me foi ensinado que talvez essa seria a minha única utilidade e junto com ela veio a certeza de que não cabe a mim amar alguma parte revestida de pele que carrego comigo. 
eu me odiei em todos os momentos em que me olhar no espelho era desconfortável e acredite, continua sendo.
me cobrei, incansavelmente, que deveria ser boa para o mundo na expectativa de algum momento enxergar algum valor, por menor que seja, vinculado a mim. 
eu fui boa para todos da forma exata que eu desejo ser boa para mim e nunca consegui.
tenho sido minha pior inimiga e o cansaço às vezes me faz querer desistir dessa incansável luta.
mas eu não desisto.
eu só choro.
eu só sinto a sensação de derrota me consumindo e a raiva por ser tão vulnerável.

dói sempre, mas eu não desisto.

eu não sei se um dia vou me amar ou vou acreditar no amor que me oferecem. eu não sei se em algum momento vou olhar para o meu corpo e sentir a real confiança de estar bem comigo. 
eu não posso te pedir que me ame e que deseje cada parte minha destroçada, pois eu sei o quão difícil deve ser amar alguém como eu.

eu tento, incansavelmente, a bastante tempo me amar.
desculpa.
eu ainda não consegui.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Criando boas lembranças

Fiz uma bucket list.
Descartei-a quase por completo.
Era fantasiosa. Surreal.
Eram os desejos de uma vida inteira.
Mas não há tempo. Não há forças.

Criei uma nova lista.
Tem apenas dois itens:
1 - Ver o pôr do Sol na Praia Vermelha
2 - Criar boas lembranças

Como as pessoas vão lembrar de mim quando eu não estiver aqui? 
Espero que da melhor maneira possível.

Então a minha bucket list está acontecendo, dia após dia.
Ver bons amigos.
Falar besteira.
Contar piada.
Rir de doer a barriga.
Gargalhar alto sem vergonha.
E no final, aquele abraço um segundo mais longo.
(Porque pode ser o último!)
Pra eles, apenas mais um encontro de amigos.
Pra mim, secretamente, uma preparação da minha partida.

Em alegria, em amor. Sem lágrimas, só risadas.
É só isso que eu vou levar.
É isso que eu quero deixar.



quinta-feira, 11 de julho de 2019

Mandando (e recebendo) a real

Participação especial: minha Sombra


Olhe pra você 

Uma mulher violada 

Uma mulher despedaçada 

Tantas vezes remendada 

Abatida pela dor

Sem brilho nos olhos

O que restou de você além de farrapos

Além da sombra do que você foi no passado?

Abandone as esperanças 

De ser amada 

De ser desejada 

De ser querida 

Abandone as esperanças 

De que você voltará a ser a mesma de antes 

Pra que lutar se tudo o que você consegue

É sentir mais dor ?

Pra que amar se tudo o que você consegue

É partir seu coração cada vez mais?


Olhe só pra você

Se prendendo a uma vida 

Que já não tem mais nada de bom

Pra te proporcionar 

Se agarrando a promessas

Que não poderá cumprir 

Fazendo planos 

Que não poderá concretizar 

Olhe só pra você 

Sem coragem 

De colocar um ponto final em tudo

domingo, 7 de julho de 2019

Exílio

Toda noite, ao deitar, me sinto mais atenta a três coisas: o tempo, a morte, e a solidão. 

Exilada de mim mesma, a sensibilidade aguça. O tempo ganha um valor diferente, a solidão se torna inegociável, e a morte vem ter contigo. E não. Não são sentimentos de pavor. É que você costura uma outra camada no tecido dos sentires. Você aprofunda, e ao mesmo tempo, evapora. 

Neste lugar, percebi-me etérea. Nada. Sopro. Fumaça, translúcida, contínua, desse frágil pavio ao qual chamamos vida. Exilar me fez ver. E, vendo, passei a valorizar umas coisas, e outras, se perderam. 

Perdi a mim mesma. Olho pra trás. Não há caminho. Não há pra onde voltar.

(Julho/2019)

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Mais uma carta de Adeus. (será a última? quem sabe?)

Olhar no espelho nunca é fácil: é sempre enfrentar uma imagem que eu não quero ver. 

Qualquer coisa é motivo para me depreciar, até uma inofensiva pinta. 

Mas não só isso. 

Eu perdi a confiança em tudo que antes eu fazia bem: escrever, estudar, dançar. Perdi a confiança até no simples ato de falar. 

Não sei mais como colocar as palavras e muitas vezes acho que ninguém quer ouvir o pouco que tenho pra falar. 

Não quero entrar em outras dores como a tristeza profunda, o desânimo, a falta de prazer nas coisas, a vontade de me autoflagelar.

Imagine o que é vivenciar tudo isso, consumindo-se por dentro, enquanto na aparência nada parece estar errado: lábios corados, ar saudável. 

Apenas você sabe que, lá nas camadas profundas do corpo, a mente morde silenciosamente o coração.

Me sinto morta.

Queria guardar comigo a esperança de atravessar de volta o rio Estige, pegar a barca de Caronte no sentido inverso e pôr o pé novamente no mundo dos vivos.

Mas me sinto morta.

Não faz muito tempo desde que quase atravessei o rio de escuras águas do Hades.  Foi por um triz. Não fosse uma mão inesperada a me segurar na beira do abismo, eu estaria a esta hora pagando o tributo ao barqueiro mitológico. 

Agora não caminho mais rumo ao abismo. 
O abismo me alcançou.

De tanto desejar a morte, sua semente instalou-se em meu coração e brotou, partindo-o ao meio.

Sinto dor, meio, frio e solidão.
Eu sou toda abismo.

Cada batida, uma pontada mais funda, um segundo a menos.

Não tenho mais lágrimas a chorar.
Nada a pedir.
Nada a esperar.
Nada a reclamar.

Só respiro fundo.
E espero.

Ah, se você soubesse quão longas são as respostas que eu tenho para as suas perguntas... mas me falta a coragem de falar, então escrevo.

eu vou ser sincera
eu quero sempre ser sincera 
contigo e comigo
eu tô um bagaço
olheira, boca seca, falta de apetite
eu ando cansada demais
minhas costas doem muito
às vezes tenho a sensação
que perdi mesmo a cabeça
mas os dias continuam
e eu vou dando um jeito
de ir com eles
você percebe que chamam a gente
de forte o tempo todo
mas esquecem que somos
carne e osso?
eu não quero ter que fugir de mim
eu não quero ter que fugir de você
eu não quero ter que fingir
que sou inabalável
desde quando se fortalecer
é não cair?
conhecer as ladeiras
nem sempre evita
que a gente escorregue por lá
e estabaque a cara no chão
e tudo bem, tudo bem errar

ontem eu deitei na cama 
fechei os olhos
e tentei esquecer
todos esses nomes
que moram em mim
são tantos andando aqui dentro
que fico alternando entre ser tão boa
e tão péssima nessa coisa de deixar ir
depois tentei lembrar do barulho das ondas
como me faz falta o desaguar
hoje eu só vou dar conta de cuidar de mim
não posso doar quando estou oca

eu amo a minha solidão
mas também preciso de abraço
de colo, de porre, de convite
de ajuda, de norte, de fé 
comigo ninguém pode
ou eu é que não posso 
com ninguém?

às vezes quando falo sobre desmoronar
dizem pra deixar pra lá
eu nunca vi tristeza passar
sem ser sentida
ignorar as feridas
não vai estancá-las
tem que parar, olhar
lavar, passar remédio 
e soprar, não tem?
a poesia não quer dizer
que sobreviver é artístico
sobreviver dói e arranca sangue
é que as palavras tem dessas
de acalentar

não se iluda 
hoje eu não vou pra fronte da luta
nem precisa me chamar
eu não desisti não
só tenho que me restaurar

então vem sentar no sofá comigo
falar besteira e dar risada
cozinhar alguma coisa 
conversar sobre as galáxias
até seis da manhã

curar começa quando
dizemos nossas verdades.

Uma oração de súplica - Sobre saber ser tudo, mesmo se sentindo ser nada (Imbolc 2019)

se sou raio, 
que eu saiba iluminar
a minha estrada
nesse breu
que eu saiba golpear
mesmo no escuro
me emprestem a retina
de minhas ancestrais
que enxergaram fé
quando tudo era medo

se carrego relâmpagos
nas veias,
que eu saiba 
que o que corre em mim
tem brilho
tem jeito
tem potência
eu sou capaz de fazer
a terra tremer

se sou vento,
que eu passe pelos vãos
dos seus dedos
que nada possa 
me segurar
me limitar
me fazer
menos presente
vendaval não pede licença
pra escancarar as janelas
e o coração

se sou brisa leve,
que eu saiba me dividir
com aqueles que sorriem
ao me ver existindo
que eu saiba sustentar o amor
dentro do peito
dentro do abraço de quem me diz
que resistiremos
que lutaremos
que seremos
assim seja

se sou furacão,
então eu posso destruir
antes de ser destruída
e se preciso for 
tiro absolutamente tudo do lugar
e defino como vai ser a partir
de agora

se sou sagrada,
que eu me benza com folhas
e búzios e velas e mãos entrelaçadas
quando dizem eparrei
a força que me invade
não me permite
o silêncio

se sou fogo,
que eu queime
antes de arder
quem sabe ser cinza e ser chama
sabe sobreviver

se sou nuvem carregada,
que eu me despeje e desague
e que mesmo que eu termine 
chuva de granizo
nasci oceano
sou mais inconstante que o mundo
sou onde tudo começa e termina
sou a história que eu quiser contar
sou revide antes mesmo que alguém 
tente me atacar
sou estrondo de trovão
meus pés descalços tocam o chão
estremeço 
mas sou profunda demais
pra acabar.

De um Eu paralelo para Mim mesma (sem data)

pretinha,
a gente continua tendo muito em comum
existir de maneira mínima não nos interessa
nem nos basta
qualquer espaço ainda parece pouco
pra comportar todas essas
nossas partes imensas
somos mulheres densas
e eu sei que de madrugada você tem medo
de estar só, de não conseguir, de se entregar
e fica pensando quando é que vai mudar
de ares, de passado, de estado
me diz, o que você faz quando perde o chão?
quantas ausências se acumularam na sua retina?
o quanto você ainda consegue se doar?
a leveza não é algo permanente
às vezes ela vem e logo vai embora
temos que relembrar
como ela chegou e o porquê de ter saído
foi assim que aprendi a estar bem comigo
eu não só decorei o que me traz paz
como também sei bem o que me tira

pretinha,
será que o barulho das correntezas dos rios
não tem muito mais a nos dizer
que todas essas vozes
que moram na gente
mas não são nossas
será que nós não estamos buscando
um jeito, um toque, um sinal
que venha como um abraço quando
estamos chovendo torrencialmente
cansadas até mesmo de dar o nosso melhor
sentimos na boca do estômago a saudade do comum
de se jogar na rede de casa, de um beijo longo
copos cheios e cheiros no pescoço
ter quem não fuja
quando nosso peito alaga
ter um sono manso sem pensar na estratégia de guerra
dos amanhãs

pretinha,
o problema não é você continuar acreditando
é que nem todas as mãos podem abrigar
o seu poder ancestral

pretinha,
sei que pareço sempre armada
cheia dos patuás e de cara fechada
se você soubesse de tudo que passei
compreenderia que aprendi a me proteger
porque já me causaram tantos danos
foram anos pra eu me reencontrar 
me gostar, me enxergar, buscar equilibrar
me roubaram tanto
agora não mais
e te digo, a dor não me fez bruta
mas sou marcada, difícil encarar as cicatrizes
de uma mulher selvagem que tem cada poro
em constante luta

pretinha, 
me procure quando se perder e quando se encontrar
perdidas podemos esbarrar os nossos sonhos
e nossos caminhos de fé
inteiras podemos transbordar
nos demorar, nos elevar

meu bem,
a cura vem mesmo
devagar.

Outro sem data, de um dia nem tão otimista assim. Uma carta para alguém, que virou uma carta pra ninguém (maio 2019)

ontem eu vi relâmpagos 
eles me lembraram de pessoas que iluminam todos os espaços que ocupam
como eu fui um dia

mas hoje me falta tato e me sobra choro
eu queria ter a palavra exata
uma poesia que nos tirasse de todo esse caos
algo que nos lembrasse sobre ter fé
sobre a força ancestral que nos rege 
ou sobre como resistir quando querem
engolir nossa liberdade
eu só consigo pensar nesses dias que atravessam
a gente no meio
parece que quando o amor vai acabando no mundo
vai murchando na gente também
semana passada enfiei na cabeça que eu seria
mais celebrativa
voltei a agradecer o vento na cara
dancei samba sozinha na cozinha de casa
abri meu peito e me dividi
e deixei o sol entrar nas minhas cicatrizes
precisava vê-las melhor
lembrar do que já me derrubou
pra me proteger daqui pra frente
o mundo sempre esteve louco
faltam quinze minutos pro dia virar
e não há o que dizer
agora é hora de abraçar bem demorado
fazer carinho no cabelo
juntar retinas
trocar afetos
dar risada de coisas
triviais
se juntar com quem ainda acredita
que podemos florescer
assim vamos amenizando as pedras
que se instalaram na nossa garganta
e no nosso estômago
amanhã vamos pensar em algumas
estratégias, cê vai ver
desabe primeiro, grite
conte seus medos
tem um rombo no meu peito
mas ainda estou viva
então ainda posso guerrear
você se pergunta com que força
eu imagino que seja com a nossa
a minha e a sua juntas podem acabar 
se tornando algo grande, vê?
quero transformar os espaços em lugares
mais cheios de respirações livres
compreender os términos e os inícios das lutas
minha história será contada por mim
sua história será contada por você
sobreviventes mas não menos potentes

por hoje vem aqui pertinho
quer ver o sol nascer algum dia
dessa semana
quer dormir aqui em casa
ver um filme 
conversar sobre qualquer coisa
dar as mãos
quem sabe aí a gente volte
a ser fogo nesses dias
em que não parecemos ver
nenhuma faísca 
quem sabe
não custa tentar

De um dia bem otimista (circa maio 2019)

eu sinto e vejo

a minha cura
é processo lento
e mesmo nas noites
em que eu não a alcanço
alguém aparece pra me lembrar
que já não há tempo para quebrar
e sem jeito me levanto
ainda com as pernas fracas
e os olhos inchados

antes tivesse ficado
um pouco mais no chão
e aprendido sobre o seu gosto
decorado o caminho de volta
da ponta do precipício
impuseram a pressa 
no meu cicatrizar

a minha cura
é abstrata e confusa
não tem linearidade
se ontem sorri levezas com os olhos
hoje a memória me engole e desestrutura

olheiras provam que eu
estou sempre contendo enchentes
me adaptando novamente ao silêncio
depois de tanto gritar
não é que eu fique sem assunto
é que às vezes é melhor não dizer nada
deslizando entre esquecimentos
seleciono as injustiças
eu prefiro saber 
o que perdi

a minha cura
não é de toda estancada
ainda sangro
ainda perco
ainda estou construindo
uma possível saída
por isso a poesia
o verso de mar bravo
placas para não mergulhar
não hoje
é esse o perigo
em ser de verdade:
distanciamento

a minha cura
é a paciência com a minha solidão 
a insistência com as brechas
ser esmagada sem previsão
mas ser cobrada pelo cuidado
que não recebo
eu percebo
meus significados não se dão facilmente
e me exigem explicações que se dissipam
a culpa não é minha se estamos
viciadas em dicionários, frases prontas
soluções instantâneas e teorias
eu sou algo novo todos os dias
mesmo partindo do antigo

eu sinto e vejo
a minha cura
que por vezes enlouquece
e me concentro não em resistir
mas em puxar o ar e dar abertura
as minhas contradições 
aos meus próprios presságios
eu já sei ser sol no escuro
às vezes piso em meu próprio abrigo
fujo e deixo notícias somente comigo
e sem adornos nos estilhaços
continuo me curando
continuo viva.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Direto do Deezer Flow

Não sei se fiz certo ou errado. Só segui o meu coração no momento. Não dá pra rebobinar a fita.
Iris (Goo Goo Dolls)
And I'd give up forever to touch you
'Cause I know that you feel me somehow
You're the closest to heaven that I'll ever be
And I don't wanna go home right now
And all I can taste is this moment
And all I can breathe is your life
And sooner or later it's over
I just don't wanna miss you tonight
And I don't want the world to see me
'Cause I don't think that they'd understand
When everything's made to be broken
I just want you to know who I am
And you can't fight the tears that ain't coming
Or the moment of truth in your lies
When everything feels like the movies
Yeah, you bleed justo to know you’re alive

And I don't want the world to see me
'Cause I don't think that they'd understand
When everything's made to be broken
I just want you to know who I am
And I don't want the world to see me
'Cause I don't think that they'd understand
When everything's made to be broken
I just want you to know who I am
I just want you to know who I am
I just want you to know who I am
I just want you to know who I am

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Emptyness

Esvaziada de mim
Perdida num campo estéril e cinza
Sem sentir 
Nem ódio nem amor 
Nem prazer nem dor 
Nem frio nem calor 
Uma casca vazia 
Alma suspensa em um mar
De vazio e de cansaço 

O corpo esgotado 
Da busca de sensações 
Da fagulha a reavivar a chama apagada
Da lâmina afiada ao orgasmo intenso 
Do filme de comédia à carreira de cocaína
Apenas despertares fugazes 
Que partem deixando apenas o nada 




quinta-feira, 30 de maio de 2019

Oração da Noite

é que eu quero estar com você como nunca quis estar com ninguém. 
com medo, sem medo e do jeito que tiver que ser, eu quero ser sua.
vejo a forma como meus olhos te tocam e percebo que te sinto além da pele. 
eu te amo daquela maneira inexplicável. 
meu corpo te deseja, além dos limites.

meu sorriso tem seu nome.
e minha boca não quer desaprender a te dizer o quanto eu quero você.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Súplica

eu quero ser devorada pelo seu olhar da maneira mais safada e perversa possível. 
quero que a falsa ideia de toque seja real enquanto suas mãos exploram cada parte intocável do meu corpo. 
eu peço pelo arrepio que percorre a espinha quando tua língua úmida tocar aquilo de mais gostoso que há em mim. 
me bebe. 
deixe seus dedos brincarem em mim.
me bate.
me chupa.
me morde.
deixe sua marca sobre a minha pele.
sinta o prazer no meu gemido trêmulo e na minha voz abafada.
se aqueça no calor que irá se fazer presente entre as nossas coxas.
dance no meu corpo suado.
exija cada vez mais.
mais devagar.
mais rápido.
te peço para não parar 
e que você não pare.

sinta minha boca quente que te engole enquanto minha língua escorre e chega a lugares inimagináveis.
venha me foder por inteiro.
me sinta.
estou entregue.
e goze.

me parta ao meio, se for preciso.
e se faça.
mas, por favor

faça eu sentir que você me deseja por inteiro.

(Março de 2019)

terça-feira, 14 de maio de 2019

Deixa eu te amar

Uma terapeuta me disse uma vez que é irônico o quanto eu amo as pessoas, e ao mesmo tempo não consigo me amar. 
Ela riu, como se o amor próprio fosse apenas uma piada. 
Eu também ri, mas em casa, chorei. 
Outras pessoas já me disseram que eu não poderia amar ninguém enquanto não aprendesse a me amar. 
Dessa vez, quem riu foi eu. 
A piada era eu. 

Eu lembro de me odiar com sete anos, meus diários lotados até as margens com críticas. Com oito anos, eu já tinha páginas escritas o suficiente para costurar, construir asas pra voar bem perto do sol, até que minhas lágrimas evaporassem e eu sentisse a cera das asas queimando os ombros e esculpindo-se sobre a pele. 

Eu tinha nove anos quando quis morrer pela primeira vez. Vinte quando finalmente achei uma solução: se eu me cortasse o suficiente, talvez a gravidade me deixaria ir. Mas ela não deixou, e eu embolei uma fronha de travesseiro ao redor do meu pescoço, apertando-a como as cordas que eu gostava de pular na minha infância. Eu ouvia meus batimentos cardíacos em meus ouvidos como um tambor, e então tudo desapareceu. Quase me convenci de que tinha conseguido partir. 

Quando comecei a escrever, derramava meu sangue em cada página, para me lembrar de que todas as coisas belas têm uma consequência. Eu esperava que a coagulação parasse, para que eu pudesse ir. 

E eu morri tantas vezes. 

Então quando eu digo pra você que te amar quase me faz pensar que a vida vale a pena, eu não estou brincando. 
Quando te digo que te amar quase faz eu me esquecer do quanto eu me odeio, não é simplesmente poesia. 

Te amar é fazer bom uso de todo o amor que eu esqueci de dar para eu mesma. 

Esse amor me lembra que se alguém consegue gostar de uma coisa morta dessa forma, se alguém consegue me abraçar e agradecer por eu conseguir abraçar de volta, se alguém consegue lidar com minhas pílulas, suportar os dias ruins, então talvez eu possa tentar respirar de novo. 

Porque o amor próprio nem sempre vem em primeiro lugar. Ou em segundo lugar. Ou nunca...

Deixa eu te amar. De longe, em silêncio, em segredo.
Deixa eu te amar. Mesmo que você não saiba, nem corresponda.
Deixa eu te amar. Te imaginar em meus braços e te acariciar sem te tocar.

Deixa seu amor ser meu porto seguro, ser a gaveta que esconde as coisas afiadas de mim, ser o corpo que carrega minha mente em colapso e me deita em uma cama de flores.

Porque talvez, mesmo que eu esteja morrendo, ainda consiga dançar com você. 

O amor não vai me curar, não vai tirar as coisas ruins do meu sangue – eu sempre vou ser uma mulher com cicatrizes, pescoço marcado, corpo violado, pele derretida. 

O amor não vai me curar, mas vai segurar minha mão se um dia eu conseguir me recuperar, e talvez vai me ensinar uma piada que valha a pena continuar viva só pra rir do seu lado. 

Eu te amo o suficiente para tentar me amar também.

14.05.2019

Sem título, sem nada

Insensato eu estar aqui, e viva.  Insensato, isso de sobreviver: mas cá estou, na aparência inteira.  Por onde vou deixo o rastro...